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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Enquanto isso, na vida real...









(Click nas imagens para aumentá-las.)

Eu sei o que você está pensando. Eu também já disse que queria chegar aos 50 anos com o corpo da Madonna. Claro que, se eu soubesse que ela tinha o corpo de um cadáver musculoso (e siliconado), nunca teria desejado isso.
É triste, mas nossa cultura deforma seus ídolos.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Monstros modernos


Não dá pra falar de mitos modernos sem lembrar de... FILMES DE TERROR!!!! X3

Como não??? Os filmes de terror, principalmente aqueles com seqüências infinitas, são responsáveis pela consolidação de toda uma série de novos monstros mitológicos. Ogros, bruxas, dragões, duendes se transformaram com o tempo nos maníacos sobrenaturais do cinema. Vai tentar se enganar que não? Quando você está sozinho em casa, no meio da madrugada, e bate aquele medinho inexplicável, você imagina o que te espiando pela janela? Talvez um gigante com máscara de hóquei, ou um homem todo queimado com unhas afiadas... Quem sabe você até olhe pra sua sala de TV e pense numa garotinha molhada com o cabelo na cara... Ou talvez você tenha medo de topar com um boneco ruivo de macacão colorido no corredor AAAHHH!!!! Atire a primeira pedra quem nunca na vida temeu essas figuras!

Tá certo, hoje já somos crescidinhos e até rimos assistindo a esses filmes... Mas isso não muda o fato de que esses são os nossos monstros atuais, parte integrante do nosso imaginário, cada um com sua história assustadora que adquiriu para nós o status de mito.

Senão, vejamos:

Michael Myers
No primeiro Halloween, as crianças pensam que se trata do Bicho-Papão. Até o roteiro do filme se refere a ele com o respeito de um símbolo poderoso: chama-o de The Shape.

Michael Myers é o primeiro dos grandes serial killers do cinema. Nasceu em 1978, com seu primeiro filme, filho de uma família normal da cidadezinha de Haddonfield. Numa noite de Halloween, o menino de 6 anos, vestindo uma fantasia e uma máscara de palhaço, pega uma faca na cozinha e mata sua irmã mais velha, Judith Myers. Quando seus pais chegam em casa de uma festa e o encontram do lado de fora, retiram sua máscara para encontrar um menino de olhar perdido e vazio.

Michael é mandado para um manicômio, e quem assume seu caso é o Doutor Loomis. Ele é o Doutor Jekyll deste Mister Hyde, o contraponto ao ódio insano e frio do Bicho-Papão, a única pessoa que mantém um relacionamento íntimo com Michael, e que por isso pode se comunicar mais profundamente com ele. O Dr. Loomis tem as melhores falas do filme:

"Eu o conheci há quinze anos. Disseram-me que não havia mais nada. Nem razão, nem consciência, nem entendimento, nem mesmo a mais rudimentar noção de vida e morte, bem e mal, certo e errado. Eu conheci um menino de seis anos, com um rosto pálido e sem emoção, e os olhos mais negros... os olhos do demônio. Passei oito anos tentando chegar a ele, e então mais sete tentando mantê-lo preso, porque percebi que o que vivia por trás daqueles olhos era pura e simplesmente... o mal."

A motivação de Michael é encontrar e matar sua irmã mais nova, Laurie, ou Jamie Lee Curtis. =p E quando ele descobre que ela teve uma filha, esta também passa a ser perseguida. Por quê? Bem, porque sim, ora. O bom de ser mau é não ter que dar explicações.

Com o tempo e as seqüências, Michael acabou virando um assassino indestrutível, muito parecido com seu subproduto mais famoso...


Jason Voorhees

Esse é o dono de uma das maiores séries do cinema, se não for a maior. São onze filmes - doze se você contar Freddy vs Jason. Tá que no primeiro filme ele não mata ninguém e só aparece no final, ainda menino, pra puxar a Alice pro fundo do lago.


Mas isso não tira a moral do homi! Jason cresce e aparece no segundo filme, e no terceiro consegue a máscara que hoje é símbolo de serial killer matador de adolescentes safadinhos.

Jason assombra as cercanias do acampamento de Crystal Lake. Se você for um jovem monitor querendo aproveitar que as criancinhas ainda não chegaram pra pegar aquela outra monitora gostosa... já elvis. Você será inevitavelmente morto por um facão/machado/martelo/flecha/arpão/tesoura de jardineiro/cornetinha de plástico, ou qualquer outra coisa em que o Jason consiga por a mão.

O mito de Jason começa com sua mãe, Pamela, que enlouquece após descobrir que seu único filho morreu afogado no lago enquanto os monitores se distraíam transando no matinho. Jason devia ser vigiado o tempo todo. Nunca ficou claro se ele também era retardado ou apenas fisicamente deformado, mas o fato é que ele não sabia nadar muito bem. Com a morte do filho, a Sra Voorhees passa a matar todos que puserem os pés no acampamento de Crystal Lake. E, quando ela é morta por uma das garotas, Jason sai do lago e assume a tarefa.

O elo mãe-e-filho nesta história é tão forte que eles nunca estão realmente separados. A Sra Voorhees incorpora a voz do filho morto em sua cabeça, e repete suas falas em tom infantil: "mate-a, mamãe, mate todos eles". A propósito, a faixa-tema de Sexta-Feira 13, "kikiki... hahaha..." é nada mais que a frase "kill her, mommy" jogada numa máquina de eco e fading. ;) A morte da mãe inverte os papéis, e agora é Jason que ouve e obedece a voz interior de sua mãe: "kill for mother, Jason". Dessa forma, mãe e filho acabam sendo um só. É um caso de amor edípico fora de controle, com uma mãe forte, influente, severa, mas amorosa, e um filho dedicado, cegamente obediente e dependente de aprovação.


A série Sexta-Feira 13 (que, por sinal, se refere ao aniversário do Jason, 13 de junho de 1946) lançou os padrões pra todos os filmes de serial killer que se seguiram, com poucos lampejos de criatividade, entre eles...

Freddy Krueger
O mais popzinho dos assassinos sobrenaturais, o homem dos seus sonhos. =p Criado por Wes Craven, depois que o diretor leu uma notícia sobre crianças na Índia que estavam morrendo após sofrer pesadelos horríveis, Freddy entrou imediatamente para o rol dos assassinos cultuados.

Nascido de uma freira estuprada por 100 loucos perigosos (a concepção é mitológica ou não é? XD), Krueger era um operário que gostava de torturar e matar crianças., com um leve toque de pedofilia. Sim, um monstro que come criancinhas. =p Ele foi preso e liberado por falta de provas, mas os pais da vizinhança fizeram justiça com as próprias mãos, trancando-o num galpão e queimando-o vivo. Agora, Freddy aparece nos sonhos dos filhos daqueles que o mataram. O inconsciente é seu território: ele cria seu pesadelo, e se te pega dentro dele, você morre também na vida real. Essa premissa favoreceu muitas cenas perturbadoras e mortes criativas, como quando Freddy suga o ar de dentro de uma asmática e a deixa murcha feito uma boneca inflável, ou quando as pessoas morrem afogadas no chuveiro, ou quando Johnny Depp é engolido pela própria cama no primeiro filme... (O quê? Não sabia? O Freddy mata até o Johnny!)

Agora, como você espera se safar de um maluco com garras afiadas quando está DORMINDO? Pois é. Sua única chance é tentar controlar o pesadelo, mas eu, pelo menos, sou uma inepta nisso, assim como, penso, a maioria das pessoas. Você pode até tentar ficar acordado, deixar a TV ligada, tomar café, se beliscar, mas não tem jeito: uma hora você vai dormir, e nessa hora o Freddy vai te pegar.

Interessante notar que todos os jovens que Freddy assombra sofrem relacionamentos disfuncionais com seus pais. Não raro, a mãe da personagem principal é ausente e alcoólatra. Os pais não acreditam nos filhos, prendem-nos em casa, não aprovam suas decisões ou amizades... E são esses os mesmos pais que no passado resolveram livrar seus filhos da ameaça do assassino de criancinhas, criando assim um perigo muito pior... Um perigo que agora vive dentro da cabeça desses mesmos filhos.

Freddy tem uma personalidade forte, e é um dos únicos serial killer monstros que fala. É comum usar de sua boca suja pra aterrorizar suas vítimas em outro nível, o da violação sexual. Chamar as garotas de "bitch" é de praxe. Mas também acontecem línguas nojentas saindo pelo bocal do telefone para lamber a boca da vítima, rasgação de camisolas e, é claro, a ameaça medonha daquelas unhas deslizando por entre pernas despidas... Pois é. Se nem Jason nem Michael aprovam o modo de vida sexo-drogas-e-rock'n'roll de suas vítimas, Freddy é o primeiro a quebrar o tabu e ir além. O monstro mais homem de todos.

Por último, não posso deixar de falar do meu querido...


Chucky

Ah, a infância! Aurora da minha vida, minha infância querida, que os anos não trazem mais... Você TEM que assistir a esse filme quando é criança. Sua vida muda, seu quarto muda, seus brinquedos assumem uma aura que você até então ignorava... Qualquer coisa pode ser ameaçadora, no escuro do seu quarto... Principalmente coisas com olhos.

Charles Lee Ray, vulgo Lakeshore Strangler, é o notório criminoso que mata pessoas em rituais de vodu misteriosos. Tudo bem, isso é até interessante, mas ele seria só mais um serial killer sem grande destaque no imaginário popular, se felizmente não tivesse sido baleado por um policial numa perseguição, entrado numa loja de brinquedos e transferido sua alma para o corpo de um boneco sucesso de vendas. Agora sim!

Chucky (seu apelido carinhoso) é encontrado nos destroços da loja por um mendigo, comprado por uma mãe de classe média que trabalha demais e recebe de menos e dado como presente de aniversário ao pequeno e solitário Andy Barclay. O universo concebido pelos criadores deste filme é opressor: a cidade grande é escura, suja, barulhenta e decadente. A família de Andy consiste em sua mãe cansada e infeliz. O único conforto do pobrezinho é se apegar ao Good Guy (Bonzinho), personagem animado de uma série de TV que atende aos chamados das crianças tristes e solitárias, descendo de um balão no céu para lhes fazer companhia. Não à toa, o que Andy mais deseja na vida é um boneco do Bonzinho. Ele até fala! E o de Andy nem precisa de pilhas!

Um boneco possuído por um serial killer que tenta passar sua alma para um menininho indefeso. A história é bizarra, mas é criativa. E o Chucky virou ícone cult, graças a sua personalidade marcante, seu visual infantil e bizarro, sua expressividade e, é claro, sua voz insubstituível, feita pelo inigualável Brad Dourif. [fangirl mode] Chucky é ídolo!


Geeeeente, eu tenho que ter essa edição de aniversário de 20 anos!!! Olha como o Chucky tá ph0da na capa!!!! Amei!!!!

Hoje, Chucky pode ser mais engraçado que assustador, mas, no início, muita gente teve medo dele. O lançamento do filme causou uma onda de paranóia, alimentada mais ainda pela idéia de jerico que tiveram de comercializar o boneco Bonzinho (wtf? Tá certo que eu compraria, mas...).

Trivia: o nome Charles Lee Ray é formado a partir dos nomes de outros três serial killers da vida real: Charles Manson, Lee Harvey Oswald e James Earl Ray.

Chucky sendo assustador:





Chucky sendo lindinho!!!!





É muita fofura pra um boneco possuído homicida só!!!

[/fangirl mode]

Caham.

E esses foram alguns dos nossos mitos do terror modernos.

A Bela, a Fera e o Amor


Uma vez, quando eu tinha meus 15 anos e lia revistas teen (importadas, veja bem, porque meu pop era britânico =p) eu li uma entrevista com o Stephen do Boyzone (lembra desse??? XD) em que ele disse que uma de suas coisas favoritas na vida eram os filmes da Disney. E continuava falando algo assim: "Eu amo Disney. Todo mundo ama Disney. Quem diz que não gosta de Disney está mentindo."

Eu pensei: não é que é mesmo?

Observe que ele não estava falando da corporação Disney -- essa é de praxe odiar, né? XD Ele se referia às histórias contadas pela Disney, às animações que fizeram a nossa cabeça quando éramos crianças em busca de referências para estar no mundo. Nesse aspecto, eu realmente não acredito em ninguém que disser que não gosta de Disney!

Mas, então, por que será que esses filmes exerceram tanto fascínio? Dica: post anterior.

As histórias que a Disney escolheu para compor seus clássicos filmes são histórias consagradas pela humanidade, mitos ancestrais que, com o tempo, foram se incorporando à cultura universal.
Na introdução de uma coletânea de contos de fadas da Jorge Zahar, Maria Tatar diz assim: "Quer tenhamos ou não consciência disso, os contos de fadas modelaram códigos de comportamento e trajetórias de desenvolvimento, ao mesmo tempo em que nos forneceram termos com que pensar sobre o que acontece em nosso mundo".

O ilustrador britânico Arthur Rackham diz que os contos de fada se tornaram "parte de nosso pensamento e expressão cotidianos, e nos ajudam a moldar nossas vidas". Segundo ele, com certeza "estaríamos nos comportando de maneira muito diferente se Bela não tivesse jamais se unido à sua Fera..."

Mas, como disse o Joseph Campbell no post passado, o nosso mundo ficou muito diferente desde a criação desses contos, e foi necessária uma adaptação aos nossos valores atuais. Acho muito interessante como a Disney fez isso pra gente.

Vou usar como exemplo a história do meu filme favorito, que é exatamente... a Bela e a Fera. =)

A versão mais conhecida dessa história foi escrita na França por Madame de Beaumont, em 1756, para uma revista feminina. Na introdução ao conto original, Maria Tatar conta que "praticamente todas as culturas conhecem a história da Bela e a Fera e as diferenças que as duas personagens são obrigadas a harmonizar prar se unirem em matrimônio. A Bela e a Fera foi celebrada como a história exemplar do amor romântico, demonstrando seu poder de transcender as aparências físicas. Sob muitos aspectos, porém, é também uma trama rica em oportunidades para a expressão das angústias de uma mulher com relação ao casamento, e é possível que tenha circulado em certa época como uma história para aplacar os medos de moças que se viam obrigadas a casamentos arranjados com homens mais velhos."

Era uma vez um rico negociante que tinha três filhas. As três eram muito bonitas, mas a caçula (sempre a caçula!) era a mais bela - e por isso passou a ser chamada de Bela.
As irmãs da Bela se achavam muito por serem ricas. Só queriam andar com gente chique e todos os dias iam pra balada, que naquela época eram bailinhos e teatro. Já a Bela preferia ficar em casa, lendo seus livros.

Até aí, a Bela original está bem parecida com a Bela da Disney - bonita, simples, inteligente e curiosa. Apesar de a Bela da Disney não ter irmãos, ela é estranhada pelo povo de sua aldeia. Além disso, seu pai não é rico nem negociante, e sim um inventor velhinho e excêntrico. A relação dos dois é muito boa. Eles sabem que são tidos como os "lelés" da aldeia e por isso apoiam um ao outro. A Disney inventou ainda o Gaston, que incorpora o papel de pretendente da Bela e ainda tem um pouco das irmãs: bonitão por fora, podre por dentro.

No conto original, as filhas do negociante costumavam receber muitas propostas de casamento, mas sempre recusavam. As mais velhas, que se achavam, diziam que só se casariam com um duque ou, no mínimo, com um conde. Já a Bela dizia que era muito jovem pra casar e que preferia fazer companhia ao pai por mais alguns anos.

MAS ENTÃO!! Quebrou a bolsa e o pai de repente ficou pobre!!!! Pois é, os tempos já eram loucos. A família agora teria que se mudar pro campo e viver da labuta. As filhas mais velhas, claro, fizeram cara de nojinho e procuraram alguém que quisesse casar com elas pra sustentá-las, mas, hehehe... Agora ninguém queria mais, naturalmente. Todo mundo só ficou com pena da Bela, que era tão bonita e tão boazinha...

Toda família foi então pro campo e, enquanto a Bela ajudava o pai no trabalho, as suas irmãs ficavam pastando, acordando tarde, morrendo de tédio e com saudades das baladas.
Um dia, o pai da Bela recebeu uma carta dizendo que um navio com mercadorias suas tinha acabado de chegar no porto. As filhas mais velhas, quando souberam que o pai iria à cidade pra ganhar dinheiro, pediram um milhão de coisas: vestidos, perucas, bolsas, sapatos etc. O pai perguntou à Bela se ela não queria nada, e ela não queria mesmo, mas pediu uma rosa.

O pai foi à cidade, mas pelo jeito a mercadoria dele tinha sido retida pela alfândega (muambeiro?) e ele teve que voltar com o chapéu na mão. No caminho de volta, no entanto, ele se perdeu numa floresta escura do mal.

A Disney optou por não usar essa história de novelinha que mexe com meio social, elite, pobreza e blahblahblah, apesar de no filme a viagem do pai também ser motivada pela esperança de ganhar dinheiro e sair da aldeiazinha do interior. No filme, porém, o dinheiro é só um coadjuvante, um instrumento, e não o verdadeiro objeto do desejo, como no conto original. A família da Disney não quer saber de status social nem de luxos. O dinheiro servirá para que eles possam se libertar de um mundo pequeno demais para o tamanho dos sonhos deles (mais bonito e menos mesquinho, né?).

Bom, no original, o pai da Bela encontrou um castelo abandonado no meio da floresta. Lá dentro, ele viu a mesa posta, comeu, viu um quarto arrumado, dormiu, e no dia seguinte ia embora. Na saída, porém, havia um jardim de rosas, e ele arrancou uma pra levar pra Bela. Mas aí apareceu a Fera, pau da vida porque foi super gente boa com o velhinho, dando comida e cama pra ele às escondidas, e em troca ele ia e depredava o jardim dela! Agora ele tinha que morrer!

O pai da Bela explicou que só precisava de uma rosinha pra levar pra filha, então a Fera disse que, se ele quisesse, poderia trazer uma filha pra morrer em seu lugar. (Gente, olha como esse povo era ingênuo: a Fera manda o pai ir falar com as filhas e faz ele jurar que, se elas não quiserem morrer, ele vai voltar pra Fera matar ele. XD E o pai ainda jura! XD Realmente, hoje em dia não ia colar!)

Chegando em casa, o pai contou tudo às filhas. É claro que quem se ofereceu pra morrer foi a Bela, dizendo que é melhor ser devorada por um monstro do que sofrer com a morte do querido papai.

Então lá se foi a Bela, pro castelo da Fera. Ao chegar, ela viu a mesa posta, e pensou que a Fera queria ela bem gordinha pra ser devorada. No meio da refeição, chegou a Fera, só pra dizer que a Bela era uma moça muito boa por ter aceitado morrer pelo pai.

Para surpresa da Bela, ela tinha um quarto com seu nome preparado no castelo. Ela percebeu então que a Fera não queria comê-la, e sim viver com ela, o que era muito mais assustador!
No dia seguinte, na hora do almoço, a Bela e a Fera tiveram sua primeira conversa, que é muito interessante (e hilária):

"Bela", disse o monstro, "incomodo se a vejo cear?"
"É o senhor quem reina neste castelo", disse a Bela, tremendo.
"Não", respondeu a Fera, "não há aqui outra senhora além de Bela. Caso a esteja aborrecendo, uma palavra sua e vou-me embora. Diga, a senhorita me acha muito feio?"
"Acho sim", disse a Bela (huahahua). "Não sei mentir. Mas acredito que é muito bom."
"Tem razão", disse o monstro, "mas além de feio, não possuo inteligência; afinal não passo de um animal." (XD)
"Não pode ser um animal se acha que não tem inteligência", replicou Bela. "Um tolo nunca sabe que é tolo."
"Então coma, Bela", disse o monstro, "e trate de não se aborrecer na sua casa. Pois tudo isto é seu, e eu ficaria desolado se você não estivesse contente."
"O senhor é mesmo bondoso", disse a Bela. "Confesso que seu coração me agrada muito. Quando penso nele, o senhor não me parece tão feio."
"Ah, senhorita, é verdade", respondeu a Fera. "Tenho um bom coração, mas sou um monstro."
"Muitos homens são mais monstruosos", disse Bela, "e gosto mais do senhor com essa aparência que daqueles que, por trás de uma aparência de homens, escondem um coração falso, corrompido, ingrato."
"Se eu fosse inteligente", respondeu a Fera, "agradeceria com um grande elogio. Mas sou um idiota e tudo que posso dizer é que fico muito grato."

Depois desse diálogo, a Bela perdeu o medo da Fera. Mas voltou a sentir quando a Fera a pediu em casamento. Ela, muito sincera, recusou o pedido. A Fera se conformou e voltou a se esconder.

E o tempo foi passando, com a Fera pedindo a Bela em casamento de vez em quando e a Bela recusando. Ela dizia que até gostaria de se casar com ele, se ele não fosse tão feio, mas que, ao menos, eles seriam sempre amigos.

Bela vivia feliz com a Fera, mas tinha saudades do pai. A Fera, então, resolveu deixá-la visitar a família, pedindo que ela não se demorasse.

Quando a Bela chegou em casa, suas irmãs vieram recebê-la casadas e infelizes. Uma tinha se casado com um cara bonitão que passava o tempo todo se olhando no espelho e ignorava a mulher. A outra tinha arranjado um cara inteligente, mas que só usava a inteligência pra espicaçar todo mundo, a começar pela esposa. Já sacou a moral da história?

A Bela então contou pra todo mundo que a Fera era muito boazinha e a fazia muito feliz, embora insistisse nos pedidos de casamento. As irmãs, cheias de inveja, resolveram segurar Bela por bastante tempo em casa, esperando que a Fera ficasse com raiva da Bela e a devorasse.

Um dia, ainda na casa do pai, Bela pensava na Fera, e teve esse insight:

"Não é muita maldade minha fazer sofrer a Fera que é só bondade para mim? É culpa dele se é tão feio, se não é muito inteligente? Ele é bom, e isso vale mais que todo o resto. Por que não quis me casar com ele? Seria mais feliz ao lado dele que minhas irmãs com seus maridos. Não é nem a beleza, nem a inteligência de um marido que fazem uma mulher feliz. É o caráter, a virtude, a bondade. A Fera tem todas essas boas qualidades. Não o amo; mas tenho por ele estima, amizade e gratidão. Vamos, é errado fazê-lo infeliz. Eu me condenaria o resto da vida."

Pausa para reflexão.

É isso mesmo. No conto, a Bela decidiu se casar com a Fera por pena. A moral da história é que uma mocinha pode ser feliz casada com alguém que não ama, desde que ele seja uma boa pessoa. Ora, ouso dizer que hoje o mundo é muito mais romântico! A Disney fez com que a Bela se apaixonasse pela Fera, apesar de sua aparência e de todos os seus defeitos, e aí sim eles puderam se casar, depois que a Fera se revelou um príncipe encantado.

A história original termina com a Bela voltando ao castelo e encontrando a Fera quase morrendo (literalmente) de saudades. Mas é só a Bela contar pra Fera que resolver casar, que o feitiço se quebra e o monstro vira príncipe. Ele tinha sido enfeitiçado por uma fada malvada, que havia lhe tirado a beleza e a inteligência até que ele encontrasse uma moça disposta a casar com ele.
Então eles se casam e vivem felizes para sempre, e as irmãs da Bela são transformadas em estátuas (por uma fada que não tinha nada a ver com a história) e postas na frente do castelo pra ficar vendo a felicidade da Bela.

Lindo final, não? Ainda tem uma vingancinha catártica. Tá certo que no filme da Disney o Gaston morre, mas ele mereceu mesmo - tentou chantagear a Bela, foi malvado com o pai dela, apunhalou a Fera pelas costas...

Na história como é contada hoje, o príncipe é transformado em Fera por ser muito egoísta, mimado e grosseiro, e só volta à forma humana quando aprende a amar e tem seu amor retribuído. Isso só aconteceu porque a Fera se tornou alguém digno de ser amado.

E foi assim que o valor do casamento por amor, e não por conveniência ou por resignação, foi incorporado à nossa mitologia moderna...

<3

[Pra quem quiser conhecer os contos de fadas originais, tem alguns livros bem legais, como "Contos de Fadas", da Jorge Zahar, e "A Psicanálise dos Contos de Fadas", da Paz e Terra, escrito pelo Bruno Bettelheim.]

Mais dos mitos

Mais do Joseph Campbell, porque ele fala umas coisas muito interessantes. =)

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MOYERS: Você ensinou mitologia durante trinta e oito anos no Sarah Lawrence. Como conseguiu que aqueles jovens – provenientes da classe média, com suas religiões ortodoxas – se interessassem pelos mitos?

CAMPBELL: Jovens em geral simplesmente se deixam arrebatar pelo assunto. A mitologia lhes ensina o que está por trás da literatura e das artes, ensina sobre a sua própria vida. É um assunto vasto, excitante, um alimento vital. A mitologia tem muito a ver com os estágios da vida, as cerimônias de iniciação, quando você passa da infância para as responsabilidades do adulto, da condição de solteiro para a de casado. Todos esses rituais são ritos mitológicos. Todos têm a ver com o novo papel que você passa a desempenhar, com o processo de atirar fora o que é velho para voltar com o novo, assumindo uma função responsável.
Quando um juiz adentra o recinto do tribunal e todos se levantam, você não está se levantando para o indivíduo, mas para a toga que ele veste e para o papel que ele vai desempenhar. O que o torna merecedor desse papel é a sua integridade como representante dos princípios que estão no papel, e não qualquer idéia preconcebida a seu respeito. Com isso, você está se erguendo diante de uma personagem mitológica. Suponho que muitos reis e rainhas sejam as pessoas mais estúpidas, absurdas e banais que você possa encontrar, gente provavelmente interessada apenas em cavalos e mulheres, você sabe. Mas você não reage diante delas como personalidades, você reage diante do papel mitológico que elas desempenham. Quando se torna juiz ou presidente dos Estados Unidos, um homem deixa de ser o que era e passa a ser o representante de uma função eterna; deve sacrificar seus desejos pessoais e até mesmo suas possibilidades de vida em nome do papel que agora desempenha.

MOYERS: Isso quer dizer que há rituais mitológicos atuando em nossa sociedade. A cerimônia de casamento é um deles. A cerimônia da posse de um presidente ou de um juiz é outro.

(...)

MOYERS: Nós vemos o que acontece quando sociedades primitivas são desmanteladas pela civilização do homem branco. Elas se partem em pedaços, se desintegram, se tornam enfermas. Não é o que vem acontecendo a nós próprios, desde que nossos mitos começaram a desaparecer?

CAMPBELL: É exatamente isso.

MOYERS: Não é por esse motivo que as religiões conservadoras, hoje, estão apelando para a religião dos velhos tempos?

CAMPBELL: Sim, e estão cometendo um erro terrível. Estão voltando a algo atrofiado, algo que não serve à vida.

MOYERS: Mas já serviu, não é mesmo?

CAMPBELL: Com certeza.

MOYERS: Eu entendo a atração que isso exerce. Na juventude, eu tinha estrelas fixas. O fato de estarem sempre ali era um conforto para mim. Elas me deram um horizonte conhecido. E me disseram que lá fora havia um Pai bondoso e amável olhando por mim, pronto para me receber, atento aos meus interesses o tempo todo. Ora, Saul Bellow diz que a ciência fez uma faxina nas crenças. Mas essas coisas eram valiosas para mim. Hoje sou o que sou por causa dessas crenças. Eu me pergunto o que acontece às crianças que não têm aquelas estrelas fixas, aquele horizonte conhecido – aqueles mitos.

CAMPBELL: Bem, como disse antes, tudo o que você tem a fazer é ler o jornal. É uma confusão! No tocante a este nível imediato de vida e estrutura, os mitos oferecem modelos de vida. Mas os modelos têm de ser adaptados ao tempo que você está vivendo; acontece que o nosso tempo mudou tão depressa que o que era aceitável há cinqüenta anos não o é mais, hoje. As virtudes do passado são os vícios de hoje. E muito do que se julgava serem os vícios do passado são as necessidades de hoje. A ordem moral tem de se harmonizar com as necessidades morais da vida real, no tempo, aqui e agora. Eis aí o que não estamos fazendo. A religião dos velhos tempos pertence a outra era, outras pessoas, outro sistema de valores humanos, outro universo. Voltando atrás, você abre mão de sua sincronia com a história. Nossos jovens perdem a fé nas religiões que lhes foram ensinadas, e vão para dentro de si.

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Sobre esse último comentário: ainda bem que hoje temos uma entidade que se encarrega de adaptar e distribuir os modelos antigos. Graças a ela, a minha geração tem sua mitologia moderna, que conhecemos e amamos desde crianças. Genial isso!










Rituais

Ah, nunca consigo me entender com ninguém nesse assunto... Com ninguém que importe, quero dizer. ;)

Eu gosto de rituais. Na verdade, mais do que gostar, eu preciso de rituais. Só que hoje eu me vejo parte de um grupo cada vez mais reduzido. Muita gente acha os rituais desnecessários, quando não uma besteira mesmo. É claro. Hoje a gente comercializa tudo, desmistifica tudo, coisifica tudo. Temos razão de sermos céticos, de desconfiar das intenções de todo mundo. Nosso mundo nunca foi tão material, tão tangível, tão sem mistério. Os rituais que persistem já perderam o significado para aqueles que participam, porque foram criados num mundo muito diferente do nosso. Em conseqüência, são repetidos de forma mecânica, sem envolvimento, sem reflexão. Hoje os rituais são só formalidades a ser cumpridas, ou desculpas pra fazer uma festa.

Mas pra algumas pessoas, como eu, eles ainda significam muito mais. Fazer o quê? Eu sou pisciana, eu gosto de misticismo. =p

Thomas Moore, que escreveu A Utopia, disse que os rituais preservam o caráter sagrado do mundo. E Joseph Campbell acha que a sociedade está desestruturada porque perdeu seus rituais. Falando nele, ficam aí uns trechinhos de um dos livros dele, O Poder do Mito (essencial!), que é simplesmente uma conversa muito legal com o jornalista Bill Moyers.


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MOYERS: E o ritual perdeu sua força. O ritual, que antes representava uma realidade profunda, virou mera formalidade. E isso é verdade nos rituais coletivos assim como nos rituais pessoais, relativos a casamento e religião.

CAMPBELL: Quantas pessoas, antes do casamento, recebem um adequado preparo espiritual sobre o que o casamento significa? Você pode ficar parado diante do juiz e se casar, em dez minutos. A cerimônia de casamento na índia dura três dias. O par fica grudado.

MOYERS: Você está dizendo que o casamento não é apenas um arranjo social, mas um exercício espiritual.

CAMPBELL: É primordialmente um exercício espiritual, e a sociedade deveria nos ajudar a tomar consciência disso. O homem não devia estar a serviço da sociedade, esta sim é que deveria estar a serviço do homem. Quando o homem está a serviço da sociedade, você tem um Estado monstruoso, e é exatamente isso o que ameaça o mundo, neste momento.

MOYERS: O que acontece quando uma sociedade já não abriga uma mitologia poderosa?

CAMPBELL: Aquilo com que nos defrontamos, no presente. Se você quiser descobrir o que significa uma sociedade sem rituais, leia o Times, de Nova Iorque.

MOYERS: E você descobrirá...?

CAMPBELL: As notícias do dia, incluindo atos destrutivos e violentos praticados por jovens que não sabem como se comportar numa sociedade civilizada.

MOYERS: A sociedade não lhes forneceu rituais por meio dos quais eles se tornariam membros da tribo, da comunidade. Todas as crianças deveriam nascer duas vezes para aprender a funcionar racionalmente no mundo de hoje, deixando a infância para trás. Penso nas palavras de São Paulo, na Primeira Epístola aos Coríntios: “Quando eu era criança, falava como criança, compreendia como criança, pensava como criança; mas quando me tornei um homem, pus de lado toda criancice”.

CAMPBELL: É exatamente isso. Eis o significado dos rituais da puberdade. Nas sociedades primitivas, dentes são arrancados, dolorosas escarificações são feitas, há circuncisões, toda sorte de coisas acontecem, para que você abdique para sempre do seu corpinho infantil e passe a ser algo inteiramente diferente.

Quando eu era criança, nós vestíamos calças curtas, você sabe, calças pelos joelhos. E chegava então o grande momento em que você vestia calças compridas. Quando é que eles vão saber que já são homens e precisam abandonar as criancices?

MOYERS: Os adolescentes que crescem nesta cidade – nas imediações da Rua 125 com a Broadway, por exemplo , de onde é que eles tiram seus mitos, hoje?

CAMPBELL: Eles os fabricam por sua conta. Por isso é que temos grafites por toda a cidade. Esses adolescentes têm suas próprias gangues, suas próprias iniciações, sua própria moralidade. Estão fazendo o melhor que podem. Mas são perigosos, porque suas leis não são as mesmas da cidade. Eles não foram iniciados na nossa sociedade.

MOYERS: Rollo May diz que há tanta violência na sociedade norte-americana, hoje, porque não há mais grandes mitos para ajudar os jovens a se relacionar com o mundo, ou a compreendê-lo, para além do meramente visível.

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Se tiver preguiça de ler (uma pena, porque o cara manda muuuuito), fica pelo menos com essa fala:

"O homem não devia estar a serviço da sociedade, esta sim é que deveria estar a serviço do homem. Quando o homem está a serviço da sociedade, você tem um Estado monstruoso, e é exatamente isso o que ameaça o mundo, neste momento."